Aromas

Olfato é fundamental para a proteção, a memória e o prazer

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Quem resiste ao cheirinho de pão recém-saído do forno? Ou ao perfume inconfundível de um café passado na hora? Ou ainda àquele aroma de churrasco que costuma invadir as casas gaúchas aos domingos? O que está por trás de tantos estímulos são inúmeros receptores olfativos que, além de aguçarem nossa gula, ainda serviram, no decorrer da nossa evolução, para proteger de possíveis ameaças.

Muito mais do que nos dizer que uma comidinha deliciosa está a nossa espera, o olfato tem a missão de ajudar a identificar alimentos tóxicos ou ambientes perigosos – como o cheiro de gás vazando. O sentido também assume papel importante nas interações sociais: nossos odores corporais são importantes nas relações entre mãe e bebê (com 30 semanas de gestação, o feto já consegue sentir o cheiro do líquido amniótico dentro do ventre) e impactam a escolha dos parceiros.

Além disso tudo, nosso faro tem relação estreita com o cérebro. Perfumes e odores estão conectados com a memória. Não à toa, problemas olfativos podem ser um primeiro indicativo de doenças neurológicas como Alzheimer e Parkinson.

Mas, enquanto alguns animais são capazes de seguir pelo cheiro a caça, no ser humano esse é um sentido que pode ser considerado de segunda categoria. Raramente tem o mesmo desenvolvimento da visão e da audição. Talvez por isso, a gente acabe dando menos atenção a ele. Que tal conhecer mais sobre o olfato?

1) Os bastidores do show

Para narizes com tudo em cima, o mecanismo é mais ou menos assim: o aroma (estímulo químico) ingressa pelas narinas, chega no teto da cavidade nasal e leva um estímulo ao nervo olfatório. Esse, por sua vez, transforma o estímulo químico em elétrico, que ruma direto para o cérebro, identificando, assim, o cheiro. Qualquer obstrução nesse trajeto pode trazer problemas olfativos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

— É preciso avaliar desde a passagem do ar até a parte neurológica. Pode ter defeito em vários locais — diz Renato Roithmann, otorrinolaringologista do Hospital Moinhos de Vento.

Na maioria das vezes, explica o médico, o problema é transitório e está relacionado a doença inflamatórias do nariz, como gripes, sinusites e rinite alérgica, que obstruem a passagem do ar. Contudo, há situações em que a capacidade de identificar cheiros torna-se irreversível, como pode acontecer com pessoas vítimas de traumatismos na face ou craniano.

Quem fica temporária ou definitivamente sem a capacidade de sentir cheiro pode sofrer perda de apetite e precisa tomar alguns cuidados. Como é o olfato que nos comunica se uma comida já passou do ponto ou se o gás está vazando, por exemplo, convém não estocar muitos alimentos e ter alarmes específicos para sinalizar possíveis vazamentos.

2) Como a visão e a audição

Com o passar dos anos, nossa capacidade de farejar também vai diminuindo. Roithmann afirma que cerca de 2% da população abaixo dos 65 anos tem algum problema de olfato. Passando os 80, esse percentual sobe para mais de 75%, em razão do declínio dos receptores olfatórios e cerebrais.

— Assim como a audição e a visão, ocorre um certo grau de perda do olfato com o passar dos anos. Isso é variável entre as pessoas e dependerá da predisposição genética. Não existem, contudo, aparelhos específicos para a melhora do olfato, como há aparelhos de audição e óculos — diz o otorrino.

3) O cheiro da emoção

Ligado ao sistema límbico, o olfato é o único dos cinco sentidos que tem conexão direta com essa parte do cérebro responsável por gerenciar nossas emoções. Como as nossas memórias dependem das emoções, a relação é inevitável.

— Coisas muito objetivas, racionais, a gente compreende, mas não lembra. As emocionais podemos não compreender, mas lembramos — diz Orpheu Cairolli, mestre em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutorando de neurociência aplicada à perfumaria.

Essa ligação explica por que, muitas vezes, lembramos de situações ou pessoas depois de uma simples fungada – ou fazemos associações ainda mais complexas.

— Uma vez fizemos uma experiência com um perfume de uma marca famosa no qual a flor de base era lírio. Uma das pessoas fez um relato assustador dizendo: “Para mim, tem cheiro de morte” — comenta Cairolli.

Atualmente, ele conduz pesquisas que avaliam a alteração dos batimentos cardíacos como resposta aos estímulos olfativos e a relação que os cheiros provocam: relaxamento ou excitação.

4) Irmão do paladar

Todo mundo já passou por aqueles dias em que o nariz está tão entupido que a comida chega a perder a graça. Isso acontece porque o olfato e o paladar são sentidos “irmãos” por assim dizer: um complementa o outro. A ferramenta que faz a mágica acontecer são os receptores de cada sentido, que atuam em conjunto.

— Por conta disso, você poderia pensar que a maior parte dos sabores depende do olfato — diz Cairolli, que também é professor das faculdades Oswaldo Cruz e Santa Marcelina, ambas de São Paulo.

O especialista lembra que nosso paladar só está apto a identificar cinco sabores: doce, salgado, amargo, azedo e umami (gosto salgado associado ao glutamato monossódico, percebido em alimentos como queijo parmesão, cogumelos, peixes e carnes). Logo, todas as demais respostas que temos são provenientes do nariz.

— Testem em casa: fechem o nariz e coloquem uma pitada de canela na ponta da língua para ver o que sentem. Não terá gosto nenhum — sugere.

5) A relação com doenças neurológicas

De acordo com o pesquisador do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul Lucas Schilling, neurologista do Hospital São Lucas da PUCRS, trabalhos recentes mostram que, antes de problemas como Alzheimer e Parkinson se manifestarem, os pacientes já apresentavam alterações olfativas.

— São doenças causadas por proteínas tóxicas que comprometeriam o bulbo olfatório, região onde chegam as vias olfatórias — justifica Schilling.

Em seu trabalho de mestrado, a farmacêutica e perfumista Letícia Wehrmann avaliou o olfato de um grupo com diagnóstico de Alzheimer, de outro que tinha comprometimento cognitivo leve e, por fim, de indivíduos sem problemas de memória. Com ajuda de Schilling e de uma neuropsicóloga, ela evidenciou alguns aspectos importantes:

— Conseguimos associar pacientes com Alzheimer à anosmia (perda total do olfato) e pessoas com comprometimento cognitivo leve com hiposmia (perda menos significativa do sentido).

Para chegar aos resultados, ela utilizou canetas específicas para testes de olfato. O experimento foi dividido em três fases: uma em que o limiar do sentido é testado, outro que buscou diferenciar aromas e o último que relacionava um cheiro a um determinado item.

— Essa última foi a avaliação que ficou mais afetada em função da perda de memória — diz Letícia.

A associação facilita o diagnóstico da doença. Segundo a pesquisadora, a perda do olfato pode ser um indicativo precoce, pois ele tende a decair entre 10 e 15 anos antes dos primeiros sintomas de Alzheimer surgirem.

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